>>>Os museus móveis de Quioto
Foto: HunterKitty / Shutterstock.com

Os museus móveis de Quioto

De ritual a demonstração de opulência. Apesar de a sua motivação se ter vindo a alterar, o festival Gion Matsuri celebra-se todos os anos, desde o século IX.
M
over uma carroça com mais de 10 000 kg ao longo de 3 km não é fácil. E se a mesma tiver umas rodas que não giram, então a coisa complica-se. Pois bem, nisto consiste a atração principal do Gion Matsuri, um dos festivais mais importantes de Quioto. Com eventos durante todo o mês de julho, o desfile das carroças yamaboko (dia 17) é o ponto alto das celebrações. São de dois tipos: hoko e yama. As primeiras são as maiores: podem chegar a medir mais de 20 m e têm de ser carregadas por várias dezenas de pessoas. As dimensões fazem com que cada volta ou mudança de rua seja um verdadeiro espetáculo. As yama são um pouco mais leves, medem entre 5 e 6 m e não costumam chegar aos 2000 kg. São preparadas com todo o cuidado e decoradas com tapeçarias e tecidos.
As carroças são consideradas pequenos museus em movimento.
Foto: kuruneko / Shutterstock.com

Um dos três grandes

Além do Gion Matsuri, Quioto organiza outros dois grandes festivais: Aoi Matsuri e Jidai Matsuri. O primeiro, em honra de um tipo de planta, é realizado em 15 de maio. E no Jidai (22 de outubro) os participantes disfarçam-se e interpretam cenas da história do Japão.

Para as carroças sobem os habitantes locais, engalanados com roupas típicas (quimonos e yukatas) e músicos que tocam flautas e sinos. Num dos hokos vai um passageiro especial chamado chigo, uma criança vestida como o Shinto e eleita entre os filhos dos comerciantes da cidade. Desde o período Kamakura que é este o propósito da festa: demonstrar a opulência do comércio local. Mas as origens do Gion Matsuri são outras. Em finais do século IX, quando uma praga assolava a cidade, Quioto não vivia bons dias. Considerado um sinal dos deuses, foram iniciados os rituais goryo-e para pedir clemência e purificação. Assim surgiram festivais como o Gion Matsuri, um dos mais antigos, que começou em 869 em redor da capela Yasaka. Como as orações tiveram resultado, foi repetido todos os anos. Nos primeiros desfiles participavam 66 carroças, o mesmo número que as prefeituras do Japão naquela época. Hoje diminuíram até 32 (nove hokos e 23 yamas).
O caráter local do desfile não impede que intervenham visitantes ocasionais e os rostos ocidentais são mais que bem-vindos para dar um toque exótico às carroças. Além de observar o desfile na rua é possível participar ativamente, integrando-o. Para isso deve inscrever-se através do Kyoto Prefectural International Center, uma instituição que se encarrega de administrar os pedidos dos estrangeiros. Para aqueles que não consigam, o festival na rua oferece outras alternativas: escutar música tradicional (gion-bayashi), comprar um amuleto (omamon) ou provar a comida típica: yakisoba, okomiyaki, takyaki, yakitori… Nas três noites que antecedem o desfile as ruas de Quioto são uma festa e as carroças permanecem na rua, iluminadas. Algumas casas deixam as portas abertas para poderem ser visitadas, normalmente aquelas que guardam no interior relíquias, como quimonos antigos. Esta generosa tradição também tem nome de festival: Byobu Matsuri.
O ponto alto do Aoi Matsuri é o desfile de mulheres que acompanham a princesa imperial.
Foto: Chiharu / Shutterstock.com
O Gion Matsuri não tem tantos seguidores como uma feira de manga, mas a sua importância na cultura e história do Japão é inegável. E demonstra como o país nipónico se move entre ambos os mundos, no do anime e no do Gion Matsuri, entre os jovens que se vestem ao estilo visual kei e entre os que preferem os yukatas.
Gion Matsuri é conhecido pelos locais como Gion-san.
Foto: Sergii Rudiuk / Shutterstock.com

Artigos relacionados

Cork ao ritmo do jazz

Cerveja preta e música. Dois dos símbolos da ilha esmeralda encontram-se no Guinness Cork Jazz Festival que, durante quatro dias,...

Piratas, caimões e outras histórias

As praias desvendam lendas de corsários e de tesouros e, uma vez por ano, as ruas enchem-se de bandeiras negras...

Se quiser pintar como Monet, viaje

Um percurso por alguns dos cenários que inspiraram os quadros dos pintores mais famosos: Paris, Monte Fuji, Holanda…

Rock in Rio incendeia Lisboa

A capital portuguesa prepara-se para entoar os refrãos de Bruce Springsteen, Queen+Adam Lambert, Maroon 5 e Avicii, no “maior festival...